A dona do mundo


Era uma criança ainda, mal aprendera o dom de se comunicar. E como toda criança, poderia ser tudo no mundo. E como é natural da infância, carregava sobre os ombros o dom da esperança de seus pais.

Não sabia o que era melhor para si, não poderia saber. Mas sabia querer, sabia ser consumista. Sabia olhar para as cores vivas dos brinquedos e para as formas engraçadas de suas bonecas.

Em sua inocência, tudo era brincadeira e toda brincadeira era séria. Em sua inocência acreditava nos monstros e nas fadas tão presentes nas falas de seus pais. Era apenas uma criança e sabia acreditar no que lhe diziam. Desconhecia a mentira, sequer imaginava que mentiras nem sempre são más.

Assim acreditando aprendeu a escutar, aprendeu a sonhar. Assim escutando viajou nos contos de fadas. Assim viajando aprendeu a amar as palavras. Amando as palavras aprendeu a descobrir sozinha, aprendeu a colorir seu mundo. Afinal, era uma criança, estava destinada a aprender. Mas crianças devem crescer, devem abandonar a infância fingindo coragem. Crianças devem aprender que contos de fadas são apenas contos de fadas. Crianças estão destinadas a deixar de serem crianças.

Assim ela descobriu também a realidade, que não era boa nem má, era somente a realidade. Deveria sorrir, não precisaria temer seus monstros novamente. No entanto chorou. Queria ter novamente suas fadas, suas bruxas, seus monstros. Aprendera a amar também seus pesadelos. Apenas não aprendera a esquecer.

A lhe amparar encontrou as palavras, reencontrou seus contos, suas lendas. Em seu eterno aprendizado descobriu que poderia continuar viajando, que poderia prosseguir sonhando. Redescobriu as palavras, reinventou seus belos monstros. Reinventou sua vida e seu mundo.

E tudo porque aprendera a ouvir. Aprendeu a amar a solidão, pois mesmo estando só sempre teria companhia. E somente porque aprendera a ouvir aprendeu a falar. E somente por isso acreditava que poderia gritar em silêncio. Seu único medo era não aprender.

O crime estava cometido. O crime perfeito dos pais daquela que seria para sempre criança, daquela que viveria para criar belos monstros e heróis cheios de defeitos. Pois ela poderia ter sido tudo na vida. E dentre todas as ciências (exatas ou não) optou pela arte, optou pela incerteza dos sonhos.

Poderia ter vivido a vida, mas optou por ter o mundo nas mãos.

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